Disclaimer (emocional)
Este é um espaço pessoal de reflexão e libertação emocional. Este espaço pode conter afirmações fortes, polémicas e, eventualmente, chocantes. Se sofre de extrema sensibilidade (e falta de sentido de humor), este espaço não é adequado para si. Se tem problemas mal resolvidos com os autores dos textos, se não gosta deles, se a mera existência de tais pessoas o irrita, o melhor é não visitar este espaço. O melhor…para si. Porque o ódio, a irritação, a raiva, a necessidade extrema de libertação de bílis (em geral, os maus fígados), fazem mal. E nós não nos queremos sentir responsáveis pela sua saúde. Já nos basta a nossa. Desde já avisamos que não teremos qualquer contenção escrita ou gráfica e que não seremos responsáveis pela sua infelicidade.

Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

Alergias

Descobri, finalmente, qual é o problema dos portugueses.
Durante muitos anos achava estranho que as mulheres (e penso que os homens também mas, felizmente, não posso confirmar) não puxassem o autoclismo e não lavassem as mãos após irem à casa de banho.
Saltava de susto sempre que ouvia aquele som característico que antecede a saída da chamada “escarreta”.
Amaldiçoava os donos dos cães por nos obrigarem a fazer caminhadas/obstáculos em todas as ruas do país.
Ficava espantada quando ninguém dava lugar ao velhinho e à senhora grávida no metro.
Indignada quando o mesmo acontecia nas longas filas de serviços públicos e privados, supermercados e afins.
Furiosa quando me apercebia de quantas pessoas actuam como se nunca tivessem tido contacto com uma “fila” ou com um simples “retire a sua senha, por favor”.
Por entre rios de estupefacção, dava por mim a perguntar: “Mas porque é que só os portugueses não conseguem aprender estas regras simples?”
Nunca obtinha resposta, obviamente.
Noutro dia, lá fiz o sacrifício e levei a minha filha de 6 anos ao Festival Panda.
O Festival Panda – esse acontecimento megalómano que ocorre uma vez por ano em Junho – não é mais do que um amplo espaço repleto de insufláveis e coisas do género, com dois palcos que apresentam dois espectáculos várias vezes por dia, um sobre a Vilamoleza e outro com várias personagens do Canal Panda.
O objectivo da deslocação ao Festival Panda é conseguir levar a sua criança no maior número de vezes aos vários insufláveis, sem perder, pelo menos, uma das sessões de cada um dos dois espectáculos.
É um objectivo perfeitamente fazível, mesmo para quem, como nós, apenas chega às 2 da tarde (sim, há pais que para lá vão às 10 e lá ficam o dia todo…).
Como habitualmente, sempre que sou forçada a conviver com portugueses, a generalizada falta de educação incomoda-me ligeiramente. Mas desta vez incomodou-me mais, porque me fez perder esperança nas gerações mais novas.
Ali, parada nas filas, por entre centenas de criancinhas de todas as idades, constatei que os rebentos – mesmo quando já tinham rebentado há bem mais de 12 anos – não possuíam as mais elementares noções sobre as regras de convivência social. A princípio, fiquei espantada. Mas faz sentido, claro. Se os pais não conhecem/cumprem as regras, como é que os putos vão aprender? Com quem vão aprender?
Não havia uma criança que respeitasse naturalmente uma fila. Só depois dos monitores (e depois de muitas insistências, gabo-lhes a paciência) e os próprios pais darem indicações é que a criança lá se arrastava para o fim da fila. Contrariada, sem perceber o porquê de tal injustiça, lá ficava a criança, ansiosa, à espera de vez (e a tentar passar à frente de um outro rebento mais distraído).
Os espectáculos tinham que ser interrompidos várias vezes para que se pedisse aos pais para se sentarem, de modo a não bloquearem a visibilidade às 50 pessoas que estavam trás de si. Várias vezes no mesmo espectáculo. E, mesmo assim, houve pais recalcitrantes.
A certa altura, numa das longas filas dos insufláveis, depois de um “avô” ter sido mandado, mais uma vez, para o fim da fila, ouço a respectiva Maria a dizer: “O Zé Manel, tu és uma coisa! Tens cá uma alergia às filas. Valha-me Deus!”.
Fez-se luz.
O problema dos portugueses não é a falta de educação. Não é a boçalidade latente. Não é, afinal, um problema cultural.
O problema dos portugueses é genético. É um simples e incurável problema de prevalência de um factor alérgico.
É a alergia à boa educação.
P.S.1: Isto é verídico.
P.S.2: É também de constatar que os portugueses têm alergia à iniciativa privada. Senão veja-se: a maioria dos portugueses está convencida de que os bares de praia são obras de caridade cristã em favor dos banhistas. Só pode ser esta a explicação, pois passam o dia todo nas espreguiçadeiras, a gozar a sombra e os poufs sem pagar e sem consumir mais nada para além do farnel que trouxeram de casa na lancheira…

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