Disclaimer (emocional)
Este é um espaço pessoal de reflexão e libertação emocional. Este espaço pode conter afirmações fortes, polémicas e, eventualmente, chocantes. Se sofre de extrema sensibilidade (e falta de sentido de humor), este espaço não é adequado para si. Se tem problemas mal resolvidos com os autores dos textos, se não gosta deles, se a mera existência de tais pessoas o irrita, o melhor é não visitar este espaço. O melhor…para si. Porque o ódio, a irritação, a raiva, a necessidade extrema de libertação de bílis (em geral, os maus fígados), fazem mal. E nós não nos queremos sentir responsáveis pela sua saúde. Já nos basta a nossa. Desde já avisamos que não teremos qualquer contenção escrita ou gráfica e que não seremos responsáveis pela sua infelicidade.

Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

Frivolidades



Eu sei que este é um espaço livre de astenia.
Eu sei que não tenho nada a ver com isto.
Mas, entre o asco e o rebolanço de riso, pareceu-me boa ideia dar largas às emoções contraditórias que me vão passando pelo corpo numa folha de papel.
Tudo começou quando, por acaso, me encontrava a ver televisão (pois eu não digo que não é uma actividade recomendável?), sintonizada na RTPN, no programa “Fala com elas”. Vejam a descrição que a RTP dá ao programa:
Programa com Mulheres sobre temas que interessam ao universo feminino, mas que não se reduz às frivolidades que lhes são habitualmente atribuídas. Programa que pretende desmistificar a ideia de que as mulheres não conseguem debater assuntos que é suposto serem debatidos apenas por homens.”
O programa é liderado por Pedro Rolo Duarte, e as convidadas até são interessantes: Joana Amaral Dias (não sendo brilhante, até pensa, embora sofra de alguma rigidez mental característica de algumas pessoas de esquerda), Isabel Stilwell (também não é brilhante, mas é uma mulher sensível e perspicaz, qualidades que encontrei no “Filipa de Lencastre: A Rainha que Mudou Portugal”, que adorei ler) e, por fim, Estela Barbot (da qual apenas posso dizer que é uma mulher de negócios…).
O problema foi mesmo a convidada rotativa da semana passada: Ana Garcia Martins!
Foi apresentada como jornalista, autora de um blog fantástico e de um livro sobre o mesmo blog, “A pipoca mais doce”.
Durante o programa, a rapariguinha não disse nada que me chamasse a atenção, a não ser um “Prontos!”, que, claro, terá sido propositado para a piaduncha, mas pensei que, sendo mais novinha e menos experiente, a sua fraca contribuição se deveria a alguma timidez.
Os temas discutidos eram (maisoumenos) sérios, dentro do género da sociedade portuguesa e dado o nível de qualquer debate televisivo. Mas, a nossa pipoca nada tinha a dizer sobre os mesmos…
Resolvi dar-lhe uma hipótese e consultar o blog. Desgraça das desgraças!
Voltemos à descrição do programa:
Programa com Mulheres sobre temas que interessam ao universo feminino, mas que não se reduz às frivolidades que lhes são habitualmente atribuídas (…)
A ver pelo blog da pipoca, há três temas que interessam ao universo feminino: futebol, sapatos e gajos, por esta ordem.
Quanto à atribuição de frivolidade, não é de estranhar que assim suceda, basta ler uma página do blog da pipoca para perceber que frivolidades é o que lá mais há. Ou, só há.
Mais,
Programa que pretende desmistificar a ideia de que as mulheres não conseguem debater assuntos que é suposto serem debatidos apenas por homens.”
E convidaram a Ana Garcia Martins???? Ah!Ah!
A pipoca fala no blog (estive e ler na diagonal desde 2004) de programas de televisão, revistas cor-de-rosa, futebol, notícias de jornal daquelas que a Manuela Moura Guedes adoraria repetir no “Jornal Nacional”, banalidades, banalidades, banalidades, namorados, ginásio, roupa, sapatos, sapatos, sapatos…
Mas há que dar-lhe crédito, a jornalista desmitifica esta ideia de que as mulheres não conseguem debater assuntos que é suposto serem debatidos apenas por homens. Cerca de um terço dos posts são sobre futebol…
Mas a verdadeira razão deste meu post foi, por coincidência, o post que a pipoca colocou hoje sobre o suposto “atropelamento” de um jornalista pelo motorista do Pinto da Costa.
A tonta da pipoca mostra-se muito ofendida com o atropelamento e cria, de imediato, uma teoria da conspiração da SAD do Porto contra a classe jornalística, aproveitando para debater, com enorme profundidade, a velha questão da prepotência dos grandes senhores que, desde tempos imemoriais, passavam com os seus coches por cima dos pobres camponeses…
Mas, já viram as imagens?
Trata-se de um jornalista distraído que é abalroado pelo espelho lateral do carro que transportava o Pinto da Costa, manifestamente, um acidente irrelevante. O tonto do jornalista, porque não tinha nada para dizer, resolveu fazer uma cena e inventar uma dúzia de ferimentos “terríveis”, bem à maneira do povo português. Mas, já viram o ar de madraço do homem? Teve mas foi uma boa desculpa para passar o dia sem fazer nenhum (à custa de ter ocupado uma ambulância do INEM, que podia estar a salvar alguém com problemas sérios…).
As minhas conclusões são estas:
- Os temas discutidos pela pipoca são, claramente, os que ocupam, em exclusividade, as mentes de 90% dos portugueses e portuguesas.
- A cabecinha da pipoca está cheia de coisas, sim, mas é quase tudo entulho.
- O convite do Pedro Rolo Duarte teve alguma razão que a razão desconhece, porque a pipoquinha nunca poderia dar qualquer contributo a uma discussão séria sobre temas sérios…




P.S.1: Portugal anda a ultrapassar os limites desejáveis de loiras.
P.S.2: Acho importante que se fale de coisas óbvias. Muitas vezes, é das coisas óbvias que nos esquecemos com mais frequência. Mas há uma grande diferença entre coisas óbvias e frivolidades…
P.S.3: Quando penso no assunto do “falso atropelamento” e vejo comentários como o da pipoquinha, lembro-me sempre da angústia que me daria assistir a três cegos a discutirem sobre a paleta de cores de uma pintura. Ninguém vê nada, ninguém sabe nada, mas todos têm uma opinião.

P.S.4: Em benefício da pipoquinha, posso dizer que, frivolidades e consumismo à parte, parece ser uma menina doce.

2 Olhares Críticos:

Rock'Art disse...

Coisa feia a inveja...

JWR disse...

Cara Rock'Art,

Não costumo ser movida pela inveja quando teço críticas, mas (e ao contrário do que acontece com a maioria dos criticados) vejo sempre qualquer crítica que não seja absolutamente gratuita como uma excelente oportunidade de auto-reflexão (coisa, aliás, que adoro fazer, lol). Claro que, antes mesmo de escrever este post, havia já reflectido sobre essa hipótese, de estar a ser movida pela inveja. Tendo reflectido durante alguns minutos, conclui que não, mas não me alonguei muito sobre o porquê.
Deste-me, agora, essa oportunidade. Obrigado.
Porque é que eu teria inveja da pipoquinha?
Sou muito mais gira do que ela, apesar de ser mais velha. Também não lhe invejo juventude, porque estou a adorar esta minha maturidade infantil e a enorme vantagem competitiva de ter 30 anos e parecer ter 20.
Sou, pelo menos, 10 vezes mais esperta do que ela e ganho 5 vezes mais (poderia, por isso, comprar cinco vezes mais sapatos, se fosse uma pipoquinha).
Tenho uma relação estável (quer dizer, estável de um modo meio louco, mas é assim que vamos gostando um do outro) há mais de 10 anos com um “gajo” que é, também, pelo menos, 10 vezes mais esperto do que a pipoquinha e que me dá bom sexo com regularidade.

Poderá haver mais por onde reflectir?

Há, sim. Na realidade, parece que pode algo que eu inveje na pipoquinha. Há, aliás, um poema da Florbela Espanca que ilustra maravilhosamente o objecto da minha inveja, mas não o estou a encontrar na net, pelo que terei de deixar outro dos poemas desta autora aqui, que versa sobre o mesmo assunto.
Tenho inveja da inocência naïve da pipoca e de milhões que são cópias chapadas. A falta de inteligência e Compreensão é, no caso dela, um dom que, muitas vezes, eu morreria por ter. Para mim, já é tarde. Como escreveu a Marion Zimmer Bradley, eu peguei nas maçãs da árvore proibida e comi-as todas. E como tudo o que se pode ler na bíblia tem um fundo de verdade, com o conhecimento vem, também, um enorme sofrimento.
Tens parcialmente razão, porque a inveja só é uma coisa muito feia quando não é admitida e confessada.
E eu, pecadora, confesso…

Não Ser

Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, sãs, inanimadas,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
- Mantos rotos de estátuas mutiladas!

Ah! arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!

Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de oiro duma flor aberta!...

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"