Disclaimer (emocional)
Este é um espaço pessoal de reflexão e libertação emocional. Este espaço pode conter afirmações fortes, polémicas e, eventualmente, chocantes. Se sofre de extrema sensibilidade (e falta de sentido de humor), este espaço não é adequado para si. Se tem problemas mal resolvidos com os autores dos textos, se não gosta deles, se a mera existência de tais pessoas o irrita, o melhor é não visitar este espaço. O melhor…para si. Porque o ódio, a irritação, a raiva, a necessidade extrema de libertação de bílis (em geral, os maus fígados), fazem mal. E nós não nos queremos sentir responsáveis pela sua saúde. Já nos basta a nossa. Desde já avisamos que não teremos qualquer contenção escrita ou gráfica e que não seremos responsáveis pela sua infelicidade.

Terça-feira, 1 de Abril de 2008

Salto Mortal - Amores Proibidos


Quando li este livro, fui envolvida na ternura erótica da relação entre Mário e Tommy, de um modo tão profundo e livre de enquadramento social, que a identidade sexual minha e deles desapareceu. Com esta obra, Marion Zimmer Bradley conseguiu contar uma história de amor sem orientação sexual, comum a todos os que amam.
E não há nada mais delicioso do que um amor proibido…

“Um relâmpago de luz azul iluminou a sala como se fosse dia e, em simultâneo, um grande estrondo sacudiu o atrelado. Mário abraçou Tommy e o rapaz soltou um grito de terror incontrolável.
– Estou – disse Tommy, a voz a tremer – Só…Só estou assustado. De repente ficou muito consciente do peso do corpo quente de Mário sobre o seu, abraçando-o com força. Mário fez menção de se afastar e Tommy puxou-o para baixo e os seus corpos ficaram deitados um sobre o outro. Disse, em tom de desafio:
– Desta vez estou acordado. E…e sei que tu também estás. E sei o que estou a fazer!
Teve tempo para sentir o coração a bater, aterrorizado, em antecipação da rejeição de Mário, até que este suspirou e, deliberadamente, baixou o rosto e beijou-o. Nunca ocorrera a Tommy que Mário o beijasse assim; e depois percebeu que, até àquele momento, não soubera o que era beijar. Aceitou o primeiro beijo infantilmente, quase passivamente, mas quando Mário o beijou de novo teve consciência, de uma forma indefinida, da dimensão do abismo que atravessara, num abrir e fechar de olhos.
Não se tratava mais de uma brincadeira furtiva e um tanto assustadora, levada a cabo no escuro, algo desagradável e unicamente suportado em troca da excitação do momento. Já não era de nada disso que se tratava. Ainda não sabia em que é que aquilo se transformaria, mas estava desejoso de descobrir. A luz de um relâmpago, desta vez muito menos catastrófico, mostrou-lhe novamente o rosto de Mário e Tommy, agora livre de qualquer embaraço ou timidez, puxou-o para baixo e beijou-o novamente.
Mário perguntou, hesitante:
– Queres…?
Tommy percebeu que ele continuava a tratá-lo como o miúdo que fora aquando da primeira vez que tinham estado assim. Sentiu-se envergonhado, envergonhado até à náusea, com a sua anterior mentira. De como fingira dormir, de como escondera o prazer assim roubado e o mantivera secreto. Agora não senti qualquer vergonha ou medo. Mas percebeu que Mário não tinha consciência da transformação que ocorrera dentro de si, que estava com medo de lhe pedir mais qualquer coisa, mais do que aquilo que Tommy já lhe dera: permissão para manipular o seu corpo passivo e a certeza de que, pelo menos, não protestaria. Tentando encontrar uma forma de expressar esta nova consciência, Tommy passou o braço pela cintura de Mário, sentindo a pele nua, tentando, sob o impulso daquela nova ternura, acariciá-lo.
Inconsciente da poesia crua da situação, Tommy disse com naturalidade:
– A forma como me beijaste deu-me a entender que deve haver muito mais…
A boca de Mário não o deixou continuar. Fortemente apertado contra Mário, a tremer, quase em êxtase naquele abraço esmagador, Tommy continuava a sentir a tensão e o terrível controlo a que o outro homem se sujeitava. (…)
A sua própria excitação crescente aterrorizou-o de novo, mas o terror perdeu-se no prazer também ele crescente de demolidor. A forma como se entregaram um ao outro em ondas de prazer fê-lo pensar, confusamente, sem ter perfeita consciência disso, do salto do trapézio para o espaço; no atordoamento aterrorizador – o próprio medo fazendo parte da excitação – a excitação quase dor…E depois, quando já não podia aguentar mais, chegava o momento do êxtase e triunfo da união, da fusão, do choque abrupto do momento, agarrando-se, seguro nas mãos dele, que conseguiam estar lá no momento exacto, quando uma fracção de segundo a mais significaria a inconsciência e a morte; mas estavam seguros, balouçando juntos…”


Excerto do livro “Salto Mortal” de Marion Zimmer Bradley.


Sinopse

Salto Mortal é o resultado de um trabalho de pesquisa sobre a actividade circense nos anos quarenta e início dos anos cinquenta, apresentado de forma ficcional, centrando a acção na história de dois trapezistas que para além das lutas encetadas pela afirmação e perfeccionismo da sua arte, lutam, simultaneamente, pela preservação do amor que os une, num ambiente hostil e adverso em que a tradição impõe os padrões de comportamento.
O sistema de relações sociais e a representação simbólica dos jovens artistas sobre a arte que desenvolvem, associados a um conjunto de motivações e aspirações que contrastam com o conservadorismo dos mais velhos, são traçados nesta obra não só como o retrato humano de uma actividade tão nobre e popular, como da mentalidade dominante no período do pós-guerra e a sua dificuldade em aceitar a homossexualidade como acto de opção individual e voluntário.


Críticas

"Ao longo de largas centenas de páginas tão fascinantes como inesquecíveis, acompanhamos a luta destes dois homens para se superarem, vencerem os seus medos e as sua limitações não só físicas mas acima de tudo morais, busca da perfeição técnica que os conduz à execução do triplo mortal, é a mesma que os ajuda a crescer corno eras humanos que se querem ver respeitados nos seus sentimentos e admirados como profissionais.
São homens que voam no trapézio e na vida, personagens duma humanidade comovente a quem Marion Zimmer Bradley (é assim que a tratam nos círculos literários), colocou asas na alma.
Marion Zimmer Bradley, obcecada pela arte do trapézio voador, documentou-se até à exaustão coleccionando recortes, vendo filmes, fotografias, revistas, documentários e programas de circo. Falou com artistas e operários encarregados de aparelhos e escutou a sua própria voz que lhe ditou a história dos Santellis voadores. Nós agradecemos."


Ana Zanatti, Os Meus Livros, Fevereiro de 2005

1 Olhares Críticos:

Carlos disse...

Eu ainda estou a ler o livro, mas sente-se ali uma verdadeira história de amor.